Parte 5: Críticas ao ciclo: que ciclo da Inteligência ? ( Vamos matar o ciclo da Inteligência )

Por Kristan J. Wheaton
Original em: http://sourcesandmethods.blogspot.com.br/2011/05/part-5-critiques-of-cycle-which.html

Apesar de sua popularidade o ciclo da inteligência é amplamente criticado pela comunidade de profissionais de inteligência. Estas críticas normalmente param após 3 linhas. Primeiro, há aqueles que dizem que o ciclo parece uma teoria monolítica que pode abrir uma série de possíveis interpretações, dependendo da perspectiva em que é analisado. Na realidade, não há somente um ciclo da inteligência, mas uma série de ciclos da inteligência que são substancialmente diferentes um do outro.

Em segundo lugar muitos autores tem afirmado convincentemente que o ciclo da inteligência, como é geralmente descrito não reflete os verdadeiros caminhos até o produto final da inteligência. De acordo com estes críticos a simplicidade do mesmo é tão sedutora quanto enganadora.

Finalmente, alguns críticos argumentam que o ciclo da inteligência é simplesmente uma ferramenta de estratégia “comercial” que plageia “ciclos” extremamente simplistas de formação em gestão de negócios e desenvolvimento de qualidades de liderança.

Vamos discutir sucessivamente cada um destes três tipos de críticas.

Qual ciclo da Inteligência

Compare o diagrama do ciclo da inteligência que até recentemente enfeitou o site Intelligence.gov ( de propriedade do Diretor Nacional de Inteligência – Director of National Intelligence – DNI ) com o diagrama do Bureau Federal de Investigação – Federal Bureau of Investigation (FBI ) logo abaixo.

Ciclo da Inteligência na Visão do FBI

Ciclo da Inteligência na Visão do FBI

 Ciclo da Inteligência na visão do Diretor Nacional de Inteligência

Ciclo da Inteligência na visão do Diretor Nacional de Inteligência

Além das diferenças óbvias de representação gráfica, quais as diferenças de conteúdo que você observa ? Se você olhar com cuidado vai notar que o FBI decidiu incluir uma fase que não está na imagem do DNI, a “fase de requisitos”.

Para um profissional experiente esta diferença é trivial. Na verdade, como eu já discuti na minha visão geral do ciclo da Inteligência na parte 4 desta série, há uma necessidade explícita de requisitos e a inclusão da fase de requisitos como uma fase separada no processo no ciclo do FBI pode parecer ser uma questão de escolha profissional.

Um estudante de inteligência, particularmente um aluno novo, no entanto, pode com toda legitimidade questionar esta explicação. Talvez haja uma diferença. Talvez esta caracterização do FBI representa uma nova forma de pensar sobre a inteligência, ou seja, pensar sobre ela com um processo. Talvez, apesar de tudo, uma representação do processo é substancialmente melhor do que a outra. E se este não é o caso, então, como você explica essas diferenças?

Não parece haver qualquer explicação racional do porque essa versão do ciclo FBI difere da publicada no site principal da inteligência do governo federal dos EUA, e particularmente desde a reestruturação da comunidade de inteligência estadudinense em 2004, que, em muitos aspectos, tem subordinada a função de inteligência ao Diretor de Inteligência Nacional. Em outras palavras, a diferença é que ela tem disparidades teóricas legítimas ou é simplesmente resultado de uma falta de coordenação, ou pior, um reflexo de um trabalho mal feito ?

Para tornar as coisas um pouco piores, a versão mais atualizada do ciclo de inteligência disponível no site do DNI torna as coisas ainda mais confusas. Você pode ver o gráfico atualmente utilizado no site intelligence.gov abaixo :

Como a inteligência trabalha

Como a inteligência trabalha

Um rápido exame da versão atual do ciclo do DNI parece diferir um pouco da versão anterior substancialmente. “Direção”, “Exploração” e “Produção” parece ter sido incluídos em categorias mais amplas de atividades. Existe alguma razão para isto ? Será que o DNI realizou estudos para determinar a melhor, mais precisa, descrição do ciclo ? Ou foi uma decisão de design gráfico feito simplesmente porque não havia espaço suficiente no gráfico para as palavras adicionais ?

E fica ainda pior.

Na mesma página que contém o gráfico acima, o DNI promove não um, mas duas variações adicionais do ciclo. Na primeira, a variação mais modesta, o DNI diz no texto que descreve a imagem:

O processo começa com a identificação das questões em que os políticos estão interessados e a definição das respostas que eles precisam para tomar as decisões mais acertadas sobre estas questões. Nós então traçamos um plano de adequado de aquisição de informação e como ela será coletada.

Se isto é verdade porque o gráfico não começa com os “requisitos” ? Porque o gráfico parece iniciar com o “planejamento” ?

E fica ainda pior.

A terceira variação do ciclo ( todos na mesma página ) do DNI fica no topo da página. Aqui se encontram cinco ligações, “gestão”, “coleta de dados”, “Interpretação”, “Análise de relatórios” e “distribuição ( disseminação/difusão )”. Clicando em “Management ( gerenciamento )” o link indica que a gestão – não os requisitos, não o planejamento – é o estágio inicial do ciclo de inteligência”.
(Suspiro)

Gostaria de saber qual versão é ensinada nos cursos de Intel 101 ?

Eu me pergunto com um estudante de inteligência não usa uma versão “alternativa” do ciclo como uma resposta a um teste ?

Eu me pergunto, se o ciclo da inteligência é perfeito ( como 15% das pessoas responderam em nossas enquetes ) , qual destes ciclos é realmente o mais perfeito ?

Se estas fossem as únicas diferenças encontradas na comunidade de inteligência e segurança nacional dos EUA, elas poderiam ser facilmente explicadas … mas não são. Na verdade, há pouca consistência entre e dentro dos vários membros-chave da comunidade de inteligência dos EUA. Essas inconsistências também existem entre diferentes ramos da inteligência.

Examine a planilha abaixo. Somente uma das funções, coleta, é universalmente atribuida à inteligência nas 10 organizações examinadas.

Planilha da de Inteligência
Dentro do DNI, CIA e FBI existem pequenas diferenças, mas todas tem sua importância. Assim, nenhum ciclo é exatamente igual aos outros dois.

Ainda mais surpreendente são as diferenças dentro do Exército. O centro de informação técnica de defesa ( Defense Technical Information Center ) – “o provedor líder de tecnologia da informação da Defesa” ) tem um ciclo de inteligência em quatro fases que se sobrepóe em grande parte ( mas não completamente ) o ciclo ensinado em Fort Huachuca, a casa dos profissionais de inteligência do exército. Este ciclo, no entanto, difere significativamente do processo definido pela doutrina militar de inteligência, Joint Publication 2.0 .

Estas disparidades aparentes no Exército poderiam ser explicadas por diferentes datas de publicação ou por minha própria incapacidade de acessar as atualizações mais recentes para esses documentos. A este respeito, a Publicação Conjunta de 2007 merece alguns comentários. Nela, os militares da inteligência parecem abandonar o ciclo da inteligência em favor de um “processo” mais genérico de inteligência. Algunas concluíram que o exército matou o ciclo de Inteligência ( mas aparentemente o mesmo não foi informado deste fim … ).

Embora seja ( do meu ponto de vista, pelo menos ) um passo na direção certa, só agrava a impressão de que ou a mão esquerda não está conversando com a mão direita na segurança nacional e inteligência dos EUA ou que o DNI não controla e não importa com o que o pessoal do estado-maior coloca em relação ao processo de inteligência. Todas estas alternativas fazem a comunidade de inteligência dos EUA parecer desleixada e desorganizada.

Eu também acho que o time do estado-maior está tentando ter seu próprio bolo e comê-lo também. Compare as duas imagens abaixo. O primeiro é da versão mais recente do Joint Pub 2.0 . A segunda é da verao de 1990 do Manual das forças Armadas 34-3 ( US Army’s Field Manual 34-3 ), de Análise de Inteligência ( Intelligence Analysis ) . Enquanto em termos de palavras há muitas diferenças entre as duas publicações, as imagens parecem dizer que os militares não apoiam muito a concepção que o processo é um ciclo.

Processo de Inteligência do Joint Pub 2.0

Processo de Inteligência do Joint Pub 2.0

Ciclo da Inteligência de 1990 FM 34-3

Ciclo da Inteligência de 1990 FM 34-3

Estas descrições do ciclo se diferem, novamente, de forma significativa a partir das descrições fornecidas por dois orgãos encarregados de fiscalizar as atividades de inteligência listados na tabela. Esta é a comissão de 19996 de Graham Hudman e a Comissão de armas de destruição em massa de 2.004.

Para completar a confusão, a descrição do ciclo oferecido pela Associação Internacional de Analista de Aplicação da Lei de Inteligência e do modelo de inteligência competitiva clássica – International Association Of Law Enforcement Intelligence Analysts and the classic competitive intelligence model – ( como descrito pelo antigo especialista do setor privado de inteligência, John McGonagle ) também diferem umas das outras nos outros 8 exemplos.

Esta análise, embora interessante, surge talvez como um pouco mais exigente do que realmente deveria ser. Outros processos em outras disciplinas se prestam a várias descrições. De fato, apesar das diferenças, há temas claros que surgem mesmo a partir desta análise. Poucos, por exemplo, questionariam estes requisitos, necessidades, direção e planejamento em uma categoria única e genérica.

Temas, no entanto, são tudo o que são. Uma abordagem rígida sobre a inteligência, implícita visualmente nas fotos acima e em muitas descrições desses processos por cada uma das organizações de inteligência, parece inadequado sob essas condições para o ensino destes conceitos a novos profissionais de inteligência ou, até, explicando o processo aos tomadores de decisão aos quais a inteligência suporta. Em vez disso, uma abordagem mais sutil e menos absolutista parece ser o que realmente precisamos.

Há uma área específica onde esta análise tem um ponto preocupante, no entanto. Apenas 3 dos 10 organismos examinados incluem um retorno ou uma avaliação dentro de suas versões do ciclo.

Embora algumas das outras organizações incluiram um feedback como uma parte do processo do difusão. Mas relegar para segundo plano esta parte do processo não é o melhor caminho para um decisor valorizar a unidade de inteligência que trabalha para ele. Seria mais apropriado incluir explicitamente o papel do feedback no processo, onde o decisor escolheria se é vantajoso utilizá-lo ou não.

Outros artigos da série:

  1. Vamos matar o ciclo da Inteligência
  2. Iremos retornar a nossa programação regular em um minuto …
  3. A desconexão entre a teoria e prática
  4. O Ciclo Tradicional da Inteligência e sua história

 

ataliba

Analista de Sistemas com especialistas em Unix/Linux e Redes de Computadores aprendeu a gostar de segurança da informação durante sua atuação profissional e após uma Pós, se apaixonou por inteligência e ContraInteligência.

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